A dor de não se reconhecer fora dos papéis que ocupa

Muitas mulheres chegam ao consultório sem saber nomear o que sentem. Entenda uma dor comum, silenciosa, e como um processo terapêutico pode trabalhar com ela.

Autora: Nayane Lima | Psicóloga de Mulheres | CRP 05/82798

9/27/20262 min read

Existe uma dor que muitas mulheres carregam sem conseguir nomear com precisão. Não é tristeza, não é exatamente ansiedade. É antes uma sensação de estranhamento diante da própria vida: mãe, profissional, filha, parceira, todos esses papéis ocupados com competência. Ainda assim, uma pergunta insiste em voltar: quem sou eu além de tudo isso que faço pelos outros?

Uma identidade construída de fora para dentro

Desde muito cedo, mulheres são socializadas a se definir pela relação com o outro, cuidar, atender, corresponder a expectativas. Essa construção não é escolha individual, sendo resultado de uma cultura inteira organizada em torno da disponibilidade feminina. O problema aparece quando essa disponibilidade ocupa tanto espaço que não sobra nada de identidade construída a partir de um lugar próprio.

Na Gestalt-terapia, essa dinâmica tem relação direta com o conceito de ajustamento criativo: a forma que cada pessoa encontra para responder às exigências do ambiente em que vive. Corresponder aos papéis esperados foi, durante muito tempo, um ajustamento necessário. O que dói, mais adiante, é perceber que esse ajustamento se tornou a única forma de existir.

Como esse trabalho acontece em processo terapêutico

O primeiro movimento de um processo terapêutico não significa abandonar os papéis que essa mulher ocupa, e sim ampliar sua awareness, sua capacidade de perceber onde termina o que ela genuinamente escolhe e começa o que apenas repete por hábito ou por medo. Essa distinção raramente é clara de início. Exige tempo, escuta e repetição.

A partir daí, o trabalho envolve reconhecer outras figuras possíveis além dos papéis de cuidado, desejos, interesses e projetos que foram deixados de lado, muitas vezes há anos, sem que a própria mulher percebesse. Não se trata de eliminar o cuidado com o outro, mas de permitir que ele deixe de ser o único critério de valor pessoal.

Esse é um processo que não se resolve em uma única sessão, mas que, sustentado ao longo do tempo, permite que essa mulher construa uma relação com a própria identidade que não dependa exclusivamente do olhar ou da necessidade de quem está à sua volta.

Se essa dor de não se reconhecer fora dos papéis que ocupa é algo que atravessa você, esse pode ser o ponto de partida de uma conversa no primeiro contato.